Pé de acerola



          Quando recebi o convite de caminhar e fotografar um cantinho da UFU que talvez eu nunca tivesse visto... o convite, na verdade, de olhar, re-olhar, ver a UFU por outros olhos, outros afetos, outros recortes... me peguei pensando em quantas vezes não caminhei pelo caminho que faço quase todo dia, tentando olhar pra todo lado e absorver um pouco daquilo que se vai pra mim... aquilo que não se pode ver, é invisível a olho nu. A UFU é agora, para mim, um recorte de saudade antecipada, nem tão antecipada assim.
            Nessas andanças que fiz, achei pé de acerola, que se escondia embaixo de outra árvore maior que ela, se escondia entre a cerca que cerca a brinquedoteca e o recanto da Joyce - tão novo e que cheira a saudade que eu tenho cheirado todo dia. Se o pé se escondia ou se o esconderam, não sei... Seja do jeito que for ou foi, encontrei-o, de surpresa, em uma (das que me parecem infinitas) despedidas que vivi na universidade.
            No dia do encontro, era cheio de acerolas, quase que me oferecendo colo em seu esconderijo cheio de vida, oferecendo vida, sabor, calor. Oferecia, talvez, o que eu pensasse que senti estando ali, um pouco do que a UFU me ofereceu nesses cinco anos que agora se vão. Hoje, sem acerolas, ele me dizia também, que já não era mais hora de dar acerola, não ali, daquele jeito, naquele tempo... Como pode árvore pequena ser também “zona de tensão” – tomando a discussão de Zanella e Wedekin, 2015 emprestada – que se posta entre tantas coisas? Entre a UFU que quero e a UFU que tenho. UFU que se vai pra mim e se chega pra um tanto de gente. Que é, muitas vezes, morte e, tantas outras vezes, se faz renascer, renascer pé de fruta que era seca e deram água. 
            Pra além do que se vê, nas impossibilidades e invisibilidades, tem imagem de pé de acerola que transmite saudade, transmite a ardida e amarga tarefa de se despedir da universidade que foi possível que eu construísse, me encontrando e desencontrando, jogando água de lagrima salgada em árvore que tava pra secar, achando canto que me acolhesse e me movimentava... Nessa imagem me vi feito acerola bem vermelha, azeda e doce, mais azeda pra uns e mais doce pra outros, feito a universidade, o pé de acerola, o recanto da Joyce, os cantos de descanso e salas de aula e reuniões... azedos e doces, ao mesmo tempo.
            Angela Vinhal

Comentários

  1. Que lindo, bem tocante! Me identifico muito com essa difícil despedida, não está sendo fácil imaginar esse salto pro desconhecido. O que será que vamos encontrar lá "fora"? Inseguranças, desejos e entusiasmo dividem os mesmos pensamentos nesse momento. Acho que é bem isso.. o doce com o azedo..

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  2. Angela, que bonita sua foto e que tocante seu texto. Acho que quase todo mundo que já passou pela experiência que você tão sensivelmente descreve, ficaria afetado. Acho intrigante o quanto, em nossa relação com o espaço, ele nos oferta o que precisamos, às vezes em exagero, às vezes em falta, e nos conta, ao que parece na hora certa, quando não há muito mais o que ofertar, quando é preciso procurar outros pés, de outras frutas, por mais que a lembrança do gosto da acerola não seja esquecida nunca.

    - Babi

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