Espelho d’gua


Dona Dê estava como em milhões de outras tardes, lavando a roupa da família inteira quando chamou aos berros sua neta Flora para estender as roupas limpas. A menina, que devia ter cerca de 12 anos, no auge pueril do início de sua puberdade, foi de encontro à vó. Flora era uma criatura que assim como o nome, lembrava muito a natureza, uma beleza bucólica, traços finos, corpo esguio, cabelos longos e dourados que formavam belíssimas ondas como as que nasciam logo mais à frente da casa de Dona Dê. Conforme Flora se aproximava, começava a perceber o cheiro da água encharcando o concreto do tanque que derramava no chão parte de sua água com sabão. Cheiro de limpeza, barulho da água em movimento, sol brilhando soberano no céu, brisa fresca que vinha direto no mar repousando sobre sua pele alva, envolvendo seus cabelos, era tudo do que ela mais gostava.
Enquanto estendia a roupa no varal, a menina observava os pássaros de penas coloridas que estavam pelo quintal, ao fundo ela também conseguia ouvir o barulho das ondas quebrando e sentia o cheio da água do mar. Apesar da pouca distância entre a casa e a praia, Dona Dê não deixava a neta ir sozinha até lá, pois quando pequena havia passado por certa situação traumática que resultou na perda de uma amiga bastante próxima, fato ainda desconhecido por Flora que sempre obedecia à avó. Nesta tarde, porém, algo instigava ainda mais o desejo de Flora visitar a praia, como se os grãos de areia, conchas e água salgada sussurrassem seu nome.
Mesmo assim, a neta obediente achou melhor esquecer tudo aquilo e decidiu ir ter com sua amiga Cecília que morava logo ao lado. Subiu na pequena muretinha e chamou pela amiga, que era um pouco mais velha, dona de olhos e cabelos castanhos, possuidora de certa melancolia. De trás da casa da vizinha surge então Cecília em trajes de banho, pronta para ir e até a praia afim de aliviar-se do calor daquela tarde. Ao ver a amiga no muro que costumavam trocar as mais diversas histórias, Cecília chama a amiga para acompanhar até a praia, mas Flora sabendo da vontade da avó diz não poder. Em seguida Flora depois de se despedir de Cecília entra para sua casa, imaginando vários argumentos para poder conversar com Dona Dê de deixa-la ir com a amiga. Ao chegar na sala Dona Dê. se encontrava em profundo sono, o que fez Flora questionar-se sobre a possibilidade de finalmente fazer algo por si só, obedecer seus desejos e vontades, rompendo assim com a rigidez da avó e dela mesma. Silenciosamente a menina tentou atravessar a sala para ir até seu quarto pegar sua roupa de banho, mas a cada passo cuidadoso que dava o chão de madeira rugia alto e provocava interrupção nos suspiros da avó ainda adormecida. Flora então desiste da ideia de colocar roupas apropriadas, já não tinha mais nada de apropriado mesmo, era o que ela pensara na hora. Foi correndo então em direção à praia, chegando lá avistou a amiga que já estava indo de encontro ao mar para dar seu primeiro mergulho. Flora surpreendendo a amiga pulou em suas costas, desequilibrando e caindo as duas no chão. A sensação de liberdade parecia impregnar cada parte de seu ser, parecia que naquele momento aflorava-se a melhor parte de si, era possível fazer qualquer coisa, nunca havia experimentado tal sensação. Cecília e Flora gargalhavam misturadas a areia morna da praia.

Ainda entusiasmadas e sem precisar trocar uma palavra, as meninas foram de encontro com o mar, pareciam estar em tamanha sintonia, que mesmo sem qualquer fala sabiam o que estavam sentindo naquele momento. Flora estava enfim em casa, nada mais importava, seus pês tocavam a água gelada, avistava a imensidão da vida e decidiu mergulhar nela para nunca mais voltar, completamente encharcada já não era mais a mesma.  

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